O controverso terceiro princípio ético da permacultura

15/04/2017 17:49

A permacultura tem três princípios éticos e vários princípios de planejamento, que pelo cocriador da permacultura, David Holmgrenseriam em 12 e que nos ensinam o que deve ser percebido e estimulado ao se planejar um ambiente humano visando sua permanência, durabilidade.

Os princípios éticos da permacultura seriam  1. Cuidar da terra, 2. Cuidar das pessoas, e 3. Compartilhar excedentes (inclusive conhecimentos), sendo esse último também chamado de Partilha justa e/ou Limites ao consumo OU ???. Esses 3 princípios éticos em alguns momentos já foram considerados em quantidade de quatro, justamente pelas polêmicas relacionadas ao terceiro princípio. Então aqui traduzimos um artigo, escrito por Tobias Long, que trata justamente desse polêmico terceiro princípio ético da permacultura e assim criamos uma oportunidade de se aprofundar no conhecimento da ética permacultural.


O controverso terceiro princípio ético da permacultura

por Tobias Long, tradução de Marcelo Venturi – Neperma, do artigo original postado em 6 de abril de 2017 pela World Wide Permaculture.

O coração da permacultura é enraizado na adesão na filosofia dos seus três princípios éticos. Os dois primeiros, Cuidar da Terra e Cuidar das Pessoas, têm sido amplamente aceitos pela comunidade pelo que eles são – simples e lógicos. A terceira ética, no entanto, tem sido objeto de debates[1] entre os praticantes de permacultura por muitos anos.

De fato, a discussão em curso sobre as várias interpretações desta terceira ética pode oferecer alguma explicação sobre por que a filosofia da permacultura não se tornou um conceito mais popular – apesar de ter sido abraçada por comunidades e profissionais em todo o mundo.

Limites e equidade

Inicialmente, a terceira ética foi introduzida como “Estabelecer Limites à População e ao Consumo“, mas tem sido expressa em uma ampla variedade de maneiras diferentes desde então: “Partilha Justa” (Fair Share), “Limitar o Uso de Recursos e População“, “Compartilhar Excedentes” [inclusive conhecimentos] e “Viver com Limites“. Embora exista, obviamente, uma sobreposição entre essas expressões, a ideia de que a terceira ética é um pouco aberta à interpretação deixa um pouco de interrogação quanto à aplicação desses princípios no design da permacultura.

O significado por trás da terceira ética, de acordo com o Permaculture Designer’s Manual escrito por Bill Mollison, é a teoria de que “ao governar nossas próprias necessidades, podemos definir recursos à parte para focar os princípios anteriores”, referindo-se às duas éticas anteriores da permacultura. No entanto, quando a frase é abreviada apenas para a ideia de “estabelecer limites para a população”, pode levar a mal-entendidos – particularmente por militantes da justiça social, que levantaram preocupações em torno de genocídio e eugenia que poderiam ser falsamente encontrados nessa frase.

Na década de 1980, o pioneiro da permacultura dinamarquesa, Tony Andersen, reformulou a terceira ética como “Partilha Justa” (Fair Share), em um esforço para evitar qualquer discussão sobre esses conhecimentos controversos. Mas enquanto esta frase simples soa agradável quando combinada com as duas outras éticas, deixa para fora uma das ideias principais atrás deste terceiro princípio ético – o conceito de projetar dentro dos limites.

População vs Uso de Recursos

Os ecologistas definem a “capacidade de carga” como o tamanho da população que um ambiente pode sustentar durante um período de tempo, levando em consideração os vários recursos disponíveis nesse ambiente. Quando a quantidade de recursos requerida por uma espécie for igual à quantidade de recursos disponíveis, a capacidade de de carga é atingida. Se a população continuar a aumentar e a quantidade de recursos não, a natureza corrige o desequilíbrio, garantindo que as taxas de mortalidade subam acima das taxas de natalidade – deixando a população de volta abaixo da capacidade de carga.

Este é o desafio apresentado pela terceira ética da permacultura – viver dentro dos limites, para manter nossa população global e o uso de recursos sob a capacidade de carga. À medida que a nossa população aumenta, haverá obviamente menos recursos disponíveis para cada indivíduo. A permacultura tenta usar o planejamento sustentável para determinar um uso médio dos recursos que pode ser mantido por um longo período de tempo, o que é parte da teoria por trás dessa terceira ética controversa.

À medida que uma escassez global de alimentos surge como resultado do impacto negativo da mudança climática sobre as safras, a ideia de capacidade de carga e de viver dentro dos limites torna-se ainda mais necessária. No entanto, o maior problema que enfrenta o nosso planeta não é necessariamente uma crescente população nos países menos desenvolvidos, mas sim o excesso de consumo das populações ocidentais o que mais contribui para o nosso desequilíbrio no uso dos recursos.

Esta terceira ética tenta abordar esta questão, confrontando uma das partes mais feias da natureza humana: a ganância. É esta ganância que nos leva a acumular recursos muito além do que poderíamos usar – mesmo enquanto os outros lutam para prover o suficiente para si ou para suas famílias. Isso não só é errado, como é insustentável no longo prazo.

Permacultura e Socialismo

Parte dessa terceira ética significa entender que a permacultura inclui a ideia de que as necessidades básicas de todos devem ser atendidas – incentivando a justiça não apenas entre os humanos, mas também entre a humanidade e outras espécies. Mas mesmo essa interpretação está sujeita à visão de mundo de um indivíduo. Pessoas com tendências mais socialistas ou comunistas poderiam levar esta ideia a dizer que “se você fizer mais do que você precisa, você deve dar a outros – incluindo aqueles que não fizeram nada para ganhá-lo“.

Embora o altruísmo seja certamente encorajado, a história mostrou que os conceitos governantes do socialismo e do comunismo foram insustentáveis. A interação desta ética como um dos princípios motrizes da permacultura pode explicar em parte por que a filosofia não tem sido mais amplamente abraçada – ela promove o pensamento de que, para praticar a permacultura da maneira como Mollison e o cofundador David Holmgren pretendiam, eles deveriam dar todos os seus pertences e viver em uma comuna com outros permacultores.

Esta ideia foi mesmo levada um passo adiante, teorizando que qualquer um dos excedentes produzidos através do planejamento em permacultura deve ser compartilhado – incluindo o conhecimento. Em vez de aceitar pagamentos por ensinar, consultar ou escrever, essas informações devem ser distribuídas gratuitamente. É uma boa ideia, mas é difícil convencer as pessoas a colocar sua energia e recursos em um projeto onde as recompensas serão compartilhadas com pessoas que não fizeram nada para ganhá-los.

Permacultura não é socialismo[2]. Os praticantes não são obrigados a viver em uma comuna, trabalhando de graça e dando o seu excedente. Permacultura não impede você de ganhar uma vida decente – na verdade, permacultura pode trazer aos praticantes todos os tipos de benefícios, incluindo financeiros. Mas enquanto esta crença [na necessidade dependente do dinheiro] continuar a permear a sociedade dominante, será difícil para os permacultores trazerem esta ciência para as massas.

Andando em frente

Em vez disso, esta terceira ética controversa deve agir como uma luz orientadora para ajudar os indivíduos a examinarem seu uso de recursos com mais cuidado – atentos para reduzir seu consumo e enfrentar o desafio social de compartilhar não só o excedente, mas também o trabalho e a produção. Permacultura é sobre comunidade, sobre resiliência e sobre sustentabilidade.

Mais pessoas estão começando a adotar o conceito “Retorno do Excedente” como a expressão da terceira ética[3], o que pode estar mais de acordo com o significado original desse princípio. Em vez de criar desperdício, permacultores são incentivados a devolver o excesso de volta para onde ele veio. Isso pode se aplicar em um sentido ambiental através de práticas como cortar e soltar ou permitir que o produto amadurecido para decompor e fertilizar o solo.

Mas o conceito também se aplica a outros aspectos da permacultura, incluindo seu investimento de tempo, trabalho e recursos. Retornos sobre esses investimentos, financeiros ou de outro tipo, podem ser direcionados e colocados de volta em sua prática de permacultura – garantindo sustentabilidade e resiliência.

Quando aplicadas à prática da permacultura, essas éticas devem ser usadas para orientar o tipo de planejamento estratégico que nos ajudará a trabalhar em direção a um futuro onde não nos preocupamos apenas com nós mesmos, mas também com outras populações humanas e não humanas e até com a própria Terra.


Para Saber Mais Sobre

World Wide Permaculture e Permacultura UFSC

Facebook: https://www.facebook.com/worldwidepermaculture/ e
https://www.facebook.com/groups/Permacultura.UFSC/

Publicação original: http://worldwidepermaculture.com/controversial-third-ethic-permaculture/

Republicada também em: http://permaculturenews.org/2017/04/13/controversial-third-ethic-permaculture/

Notas do tradutor

[também entre colchetes ao longo do texto]:

[1] Assim como é comum ocorrer com todas as polêmicas que envolvem a simplificação das definições das ciências humanas. Os dois primeiros princípios éticos remetem, indiretamente, às questões ambientais e sociais, e este terceiro remeteria à sustentabilidade “econômica” real, e não àquela defendida pelo mercado através do falacioso tripé da sustentabilidade (social, ambiental e econômica), como é bem questionado por Ignacy Sachs, Carlos Walter Porto-Gonçalves e outros autores.

[2] Permacultura sem dúvida não é socialismo nem comunismo, muito menos capitalismo – já que esse se baseia na competição e num crescimento infinito. Eu acredito que como uma lógica ambiental e social assim proposta, ela seja muito mais próxima de um cooperativismo, ou um terceiro caminho ainda mais equilibrado e que remete ao anarquismo, sempre consciente, talvez com uma certa influência de Kropotkin, com sua “Ajuda mútua”, e outros autores e que seria uma ecologia social aplicada de forma consciente a direcionar a sociedade às relações ecológicas positivas, como é o mutualismo.

[3] Eu particularmente, quando ministro as aulas referentes aos princípios sempre apresento pelo menos duas formas: Partilha Justa – que é o que está descrito nas figuras de David Holmgren e por isso utilizo desta forma – e Compartilhar excedentes, inclusive conhecimentos que é o que mais simpatizo por considerar a forma mais compreensível. A expressão em inglês Fair share, apesar de literalmente significar partilha justa, as vezes me remete a outro uso não tão libertário mas mais capitalista que é o comércio justo ou mercado justo. Mas isso é apenas uma questão de interpretação minha e não seu significado real. E a expressão Retorno do excedente não sei se em português repassa tão bem o que quer dizer este princípio e que não seja dito pelo Compartilhar excedentes, mas por outro lado apresenta uma questão bem mais ambiental que é a questão do deixar o que é da natureza lá, caso não seja usado e assim abre realmente uma nova interpretação e ação pra maioria dos permacultores, numa visão bem mais preservacionista que conservacionista. Este seria nosso papel? Será que precisamos tanto assim? Vale a reflexão. Isto é, mesmo com este texto explicando bem as questões ao redor deste terceiro princípio ético creio que ainda não chegaremos a um consenso.

Educandos de psicologia e mais 21 cursos buscam vaga na permacultura

20/03/2017 13:46
Educandos interessados em cursar a disciplina "Introdução à permacultura" (em azul) e aqueles que irão cursá-la nesse semestre (em laranja).

Educandos interessados em cursar a disciplina “Introdução à permacultura” (em azul) e aqueles que irão cursá-la nesse semestre (em laranja).

A décima primeira edição da disciplina Introdução à Permacultura teve uma enorme procura por vagas, com destaque para o curso de psicologia que registrou a maior procura da história da disciplina. Um total de 75 pessoas oriundas de 21 cursos de graduação, um de pós-graduação e pessoas externas à UFSC, solicitaram ingresso em uma das 20 vagas ofertadas na turma de 2017/1.

Após priorizar os alunos do cursos de Geografia e Ciências Biológicas, que apresentam a disciplina em suas grades curriculares, o preenchimento de vagas remanescentes é realizado a partir da lista de suplência fornecida pelo CAGR/UFSC, por intermédio do IAP do educando.

Desde sua primeira edição, uma composição eclética da turma é necessária para que diferentes linhas de pensamento possam enriquecer o aprendizado dos 20 alunos que seguirão até o final do semestre. A troca de saberes é essencial na formação em permacultura e é um objetivo permanente do grupo de 9 instrutores que estarão à frente do processo de ensino nesse semestre.

Um total de 7 pessoas externas à UFSC interessadas em cursar a disciplina participaram dos dois primeiros encontros, bem como um pós-graduando e duas dessas demandas foram atendidas.

A disciplina Introdução à Permacultura é uma iniciativa do Núcleo de Estudos em Permacultura e está vinculada aos cursos de graduação em Geografia e Ciências Biológicas da UFSC.

Acompanhe as atividades da Permacultura UFSC no Facebook

Permacultura e educação ambiental são temas de TCC na geografia

17/12/2016 20:34
Petra Viebrantz e a banca avaliadora de seu trabalho de conclusão de curso.

Petra Viebrantz e a banca avaliadora de seu trabalho de conclusão de curso.

O trabalho de conclusão e curso (TCC) de Petra Viebrantz, que versou sobre “A permacultura como estratégia de educação ambiental formal: potencialidades e limitações“, foi apresentado em 16 de dezembro de 2016 no NEPerma, sob a avaliação da banca constituída pelo orientador Arthur Nanni, a Profa. Rosemy Nascimento doutorando em Geografia e Mestre em Ecossistemas Marcelo Venturi.

O trabalho apresenta uma revisão bibliográfica sobre a permacultura expondo sua visão, os princípios éticos e o método de planejamento espaços, abordando a temática sobre permacultura em escolas e o ensino de educação ambiental formal. O TCC versou sobre as principais políticas públicas e programas relacionados ao tema no Brasil, em Santa Catarina e no município de Florianópolis, contextualizando também a função social das escolas dentro desta temática.

O TCC nasceu de um estudo de caso vinculado ao projeto de extensão “Permacultura na Escola”, realizado na EBM Maria C. Nunes, localizada no bairro Rio Vermelho em Florianópolis entre 2013 e 2014, relatando como se deu a realização do planejamento permacultural e o processo pedagógico de ensino baseado na permacultura desenvolvido na escola, apontando através de resultados de pesquisa, quais foram os potenciais e as limitações encontradas.

Texto de Petra Viebrantz com revisão de Arthur Nanni